Linguagem, poesia, filosofia e a potência do pensamento

Por Reginaldo Antonio Marques dos Santos¹

Giorgio Agamben (1942 -) em seu artigo intitulado: “O fim do poema” parte da tese de que a poesia acontece na tensão e no contraste – “som e sentido, série semiótica e série semântica”. Desta forma, também na possibilidade de interferência, de contradição. Para o filósofo italiano, critério (único) para distinguir a poesia da prosa, tratado pelo autor como enjambement – encadeamento sintático de dois versos -, ou, a oposição entre os limites: métrico e sintático. Sob tais pressupostos é possível considerar como poético o discurso quando neste houver possibilidade de oposição – virtual, ao menos – e prosaico quando não houver.

Existe uma ruptura entre som e sentido no qual o verso reside. Pensando quanto à possibilidade do enjambement Agamben aponta para a importância do fim do verso. Destaca que mesmo diante da possibilidade de contar regularidades, anomalias, sílabas, etc, “o verso é, em qualquer caso, uma unidade que encontra o seu principium individuationis somente no fim”, definindo-se somente onde finda. O que acontece no fim do poema? Se, o quê o define é a possibilidade do enjambement o último verso não é um verso?

O “fim do poema” é denominado por Agamben por conta do desarranjo, da economia poética, na medida em que busca uma saída para a não coincidência entre som e sentido exatos. Quando o som tende a arruinar-se, a perder o sentido, “o poema procura uma saída suspendendo […] o próprio fim, numa declaração de estado de emergência poética”. Mas, se a poesia vive somente na tensão (som e sentido, série semiótica e semântica) o que acontece em sua ruína considerando que a oposição não é mais possível? O poema virou prosa? Nesta direção Agamben ressalta a questão de “uma indeterminação entre prosa e poesia”.

Neste sentido, o filósofo italiano cita Dante Alighieri quanto ao “modo mais belo de finalizar um poema, lá onde os últimos versos caem rimados, no silêncio”. Utiliza como exemplo: “Cosi nel mio parlar voglio esser aspro”, onde a intenção suprema do poeta coincide, embora não-relacionada com a rima do primeiro verso seguida de quatro versos ligados dois a dois – “baciata”. Deste modo, mesmo parecendo arruinar-se no sentido, o poema mais uma vez cai marcado pela oposição entregue totalmente ao sentido. “A dupla intensidade que anima a língua não se aplaca numa compreensão última, mas se abisma, por assim dizer, numa queda sem fim”. Assim, a estratégia do poema é revelada: “que a língua consiga no fim comunicar ela própria, sem restar não dita naquilo que diz”.

A filosofia – como o poema – não viverá se não na tensão dos versos? Ela se tornará uma indeterminação entre prosa e poesia e conseguirá cair entregue ao sentido? Ludwig Wittgenstein citado por Agamben diz que “a filosofia deve-se apenas propriamente poetá-la”, enquanto Agamben parafraseando-o diz que “a poesia deve-se apenas propriamente filosofá-la”. Se no fim, o poema só tem sentido transformando-se sem deixar de lado a oposição que o trouxe até ali, de outro lado a filosofia corre riscos ao fazer coincidir som e sentido – que não são duas substâncias, e sim “duas intensidades da única substância lingüística”. Para habitar terras contestadas a contestação é indispensável. Caso contrário, a espera pelo monge pode resultar na indeterminação do que se pretende com o que se possui.

Assim como no poema de Dante Alighieri, a beleza da filosofia talvez esteja na oposição “sem restar não dita naquilo que diz”, porém, sem findar. E, a linguagem que define a oposição pode estar presente no sentido, um “enjambement” que não necessariamente coincidirá som e sentido. Na filosofia, assim como na música – através de uma pausa – o silêncio pode ser a melhor forma de dizer algo. O poema não tem pretexto de exatidão, nem a filosofia. Finda a consonância sem findar o sentido. Tanto o poeta, quanto o filósofo tem em seu seio a arte, a razão, a oposição. E, se não há tensão e contraste não há poesia, e se não há poesia, não há filosofia.

¹ Reginaldo é Presidente do Centro Acadêmico de Ciências Sociais – UNC – Mafra/SC, Membro do Grupo de Estudos em Giorgio Agamben – CNPq. Pesquisador PIVIC estuda a relação entre poesia, música e filosofia no pensamento de Agamben – CNPq. Lidera o Grupo de Estudos em Ciências Humanas – “Mentes Inquietas” – em São Mateus do Sul/PR. Também atua como Professor de Sociologia – SEED/PR e SED/SC.

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2 opiniões sobre “Linguagem, poesia, filosofia e a potência do pensamento

  1. Belo texto, Reginaldo! E provocativo… Até que ponto o silêncio pode ser a melhor forma de dizer algo? Quando se fala em som, sentido, contestação, percebe-se a necessidade de expressão. O silêncio remete a pausa, ao vazio do som. E nesse ponto, pode haver sentido, mas não há linguagem. O sentido seria fruto da interpretação, que seria resultante de um eco do som de algo que já foi (não sendo o silêncio o contra argumento, mas um espaço de possibilidade influenciado pelo conjunto de sentidos antes do som).

    p.s: E, sendo a filosofia e a poesia espaços em que o sentido baila ancorado pela oposição, o sentido é realmente não fazer sentido… (risos).

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    • Prezada Cristiélen! Agradeço seu comentário e espero contribuir com suas reflexões. Neste sentido (música, poesia e filosofia), o emprego do silêncio está atrelado à uma forma de expressar-se a partir do próprio não-dizer. A pausa na música é extremamente necessária para a estética. O silêncio na filosofia, enquanto possibilidade de reflexão – talvez até conhendo melhor a si mesmo, como colocou Sócrates). Ou ainda, pode-se reagir a uma argumentação equivocada simplesmente ignorando-a, principalmente nos casos de pensamentos reacionários e extremistas. Quanto à poesia dispensa-se a concordância entre som e sentido, e o sentido pode realmente ser não ter sentido. Assim o silêncio pode ser fundamental para o que estudamos e chamamos de “linguagem”. Grande abraço…

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